#5 - a nostalgia e o ritual
Na intersecção entre o analógico e o digital
Há objetos que falam baixinho na nossa língua de infância. Não fazem muito barulho, só acenam do fundo de uma gaveta: a lata azul da Nívea, a régua amarela da Maped, o Walkman que engolia pilhas como quem come Pintarolas. O que nos puxa não é só o objeto: é a promessa de reencontrar uma versão mais simples de nós. As marcas, astutas, aprenderam a afinar esse chamamento.
Pensemos na fotografia analógica. Não voltou por falta de megapixels; voltou pelo tempo entre o clique e o ver. Esse atraso (fotografar, esperar, revelar, colar no álbum) é antídoto para o imediatismo do telemóvel. A fricção obriga-nos a focar: cada disparo custa, por isso colocamos mais intenção em cada fotografia.
O vinil segue a mesma lógica. Não promete “melhor que o streaming”, promete outra relação com a música. Tocar um disco obriga presença: limpar a agulha, virar o lado, respeitar a ordem pensada, começo, meio, fim. O que compramos é o micro-ritual que nos recentra.
Há aqui terreno fértil para Millennials e, pasme-se, para Gen Z: quem nasceu ligado também quer sentir como é viver fora da rede. Mas, se com os Millenials é fácil recriar uma tarde na casa da avó, nos anos 90, a Geração Z ainda não tem o filtro sépia nas suas memórias. A chave, portanto, não é “reviver” objetos, é reativar modos de estar menos imediatos e mais atentos, traduzindo esse modo para o presente.
O futuro reside em proporcionar menos estímulo e mais significado. Quem conseguir converter essa fórmula em produto, sem fetichizar o passado, ganha atenção sustentável num mundo à beira do esgotamento.
Fora da Prateleira
A Sanjo nasceu em 1933 em São João da Madeira e ficou ligada aos modelos K100 e K200 que marcaram recreios de escolas durante décadas. Depois de uma fase conturbada, a marca comunicou o regresso com produção novamente em Portugal, mantendo o design caraterístico e introduzindo matérias e cores atuais. No portfólio recente surgem reinterpretações e novos modelos, com ênfase na tradição, nos materiais e na colaboração com criativos portugueses. Calçar uns Sanjo em 2025 é voltar, por momentos, ao pátio da escola, com um pão com marmelada na mão e a vida toda pela frente.
The Analog Chronicles é um projeto recente que ilustra o crescente interesse por métodos considerados “nostálgicos”. Cinco fotógrafos, cinco câmaras icónicas. O desafio: trabalhar em película na era da fotografia digital para mostrar como o processo altera o resultado. O resultado é um revisitar da nossa infância, celebrada nos álbuns de família onde não havia likes, partilhas nem comentários.
Bibliografia
Nostalgia and Its Discontents — Svetlana Boym
Um ensaio que distingue duas formas de nostalgia: a restauradora, que tenta reconstruir um passado idealizado (alimentando mitos e identitarismos), e a reflexiva, que aceita a perda e usa o passado para pensar criticamente o presente
A quiet, satisfying rebellion against the digital age — Sundus Abdi
Relato em primeira pessoa de quem trocou o telemóvel por uma câmara de filme, numa jornada contra o excesso digital.
Um romance que percorre arquivos e ruas de Paris à procura de uma adolescente desaparecida. Um combate silencioso contra o esquecimento e uma afirmação límpida do poder redentor da memória.
Leite Derramado — Chico Buarque
A desarmante narrativa de um homem idoso, acamado, que revela um Brasil que já só permanece na sua própria memória.
A Conversa Continua
“Remembrance of things past is not necessarily the remembrance of things as they were.” ― Marcel Proust
Todas as semanas invado um cantinho da tua caixa de entrada, não para gerar ruído, mas para gerar dúvidas, ideias e até contradições.
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Também me tenho virado para o mundo físico, em oposição ao digital. Tirar a fotografia, colocar o disco, fazer o pão: parece que para sentirmos que estamos no presente, temos de usar os nossos sentidos, mexer as mãos e o corpo numa dança que é uma jornada até um objetivo. O estar fora da rede parece trazer uma calma e uma reconexão connosco próprios.
Sobre usar as marcas do passado, pode ser uma forma de fugir do presente e mergulhar num lugar confortável que não muda.
Obrigada Lídia, por mais uma manhã de reflexão que me diz tanto.
Eu encontro no analógico uma simplicidade, autenticidade e até paz. Não só na fotografia, em tudo o que me faz reviver memórias, mas também no parar.
Ando sempre com uma máquina analógica de apontar e disparar na mala, de certa forma é um objeto âncora que me faz recordar do momento em que preciso de largar o “digital” e ir apenas, sem expectativas, sem querer mostrar aos outros. É libertador.